O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por sintomas persistentes de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade. Embora comece na infância, pode continuar na adolescência e na vida adulta, com manifestações e impactos diferentes ao longo da vida. [1, 2]
Em meninas e mulheres, algumas apresentações podem chamar menos atenção da família, da escola e dos profissionais de saúde. Isso pode contribuir para o reconhecimento tardio ou para a ausência de diagnóstico. [2–5]
Por que o TDAH pode ser menos reconhecido em meninas?
A imagem mais conhecida do TDAH costuma ser a de uma criança muito agitada, impulsiva e com comportamentos que interrompem as atividades. Entretanto, essa é apenas uma das possíveis apresentações do transtorno.
Em média, meninas e mulheres podem apresentar manifestações menos disruptivas, com predomínio de desatenção, desorganização e dificuldades executivas. Como esses sinais nem sempre provocam problemas comportamentais evidentes, podem receber menos atenção durante a infância. [2, 4, 5]
Isso não significa que meninas não possam apresentar hiperatividade e impulsividade, nem que exista um único “TDAH feminino”. A avaliação deve considerar toda a variedade de sintomas, sem se limitar a estereótipos. [2]
Algumas mulheres também relatam ter desenvolvido maneiras de compensar ou esconder suas dificuldades. Essas estratégias podem reduzir a percepção externa dos sintomas, mas não necessariamente evitam prejuízos emocionais, acadêmicos, profissionais ou relacionais. [2, 3]
Quais sinais podem estar presentes?
Entre as manifestações que podem fazer parte do TDAH estão:
- Desatenção e distração frequentes.
- Esquecimentos e dificuldade de organização.
- Problemas para planejar, iniciar ou concluir tarefas.
- Hiperatividade e impulsividade.
- Prejuízos nos estudos, no trabalho ou nos relacionamentos. [1, 2]
Nenhuma dessas características, isoladamente, confirma o diagnóstico. É necessário verificar se os sintomas começaram no período do desenvolvimento, persistem ao longo do tempo, aparecem em diferentes contextos e provocam prejuízos funcionais. [2, 4]
Ansiedade, depressão e desregulação emocional
Ansiedade e depressão podem coexistir com o TDAH e também causar dificuldades de concentração, motivação e organização. Por isso, a presença de uma dessas condições não confirma nem exclui o transtorno. A avaliação deve reconstruir a evolução dos sintomas e identificar quando cada dificuldade começou. [2, 4]
A desregulação emocional também pode estar associada ao TDAH e aumentar seu impacto cotidiano. Entretanto, não é um sintoma que, isoladamente, permita estabelecer o diagnóstico. [2, 9]
TDAH e transtorno de personalidade borderline, por exemplo, podem compartilhar manifestações como impulsividade e instabilidade emocional. A intensidade dessas características, sozinha, não diferencia adequadamente as duas condições. É necessário avaliar os critérios específicos, o curso temporal e a possibilidade de coexistência. [2, 9]
Os hormônios podem influenciar os sintomas?
Estudos sugerem que algumas mulheres percebem variações dos sintomas de TDAH ao longo do ciclo menstrual. Uma revisão sistemática encontrou evidências sugestivas de associação entre hormônios sexuais e sintomas, principalmente durante a puberdade e o ciclo menstrual. [6]
Entretanto, essa revisão incluiu apenas 11 estudos, com diferenças importantes entre participantes, métodos e medidas utilizadas. As evidências ainda não demonstram que as alterações hormonais causem diretamente mudanças nos sintomas, nem que produzam o mesmo efeito em todas as mulheres. [6]
Também foi observada maior frequência de sintomas de humor relacionados a períodos de mudança hormonal em uma amostra clínica de mulheres com TDAH. Por se tratar de evidência observacional, o resultado indica associação, mas não comprova causalidade. [7]
Outro estudo encontrou maior frequência de critérios provisórios para transtorno disfórico pré-menstrual entre participantes com diagnóstico autorreferido ou rastreamento positivo para TDAH. O levantamento não confirmou o diagnóstico por acompanhamento prospectivo e não permite concluir que uma condição cause a outra. [8]
TDAH nas diferentes fases da vida da mulher
Na puberdade, existem indícios de associação entre o desenvolvimento puberal e mudanças nos sintomas, mas os estudos ainda são insuficientes para estabelecer uma trajetória comum a todas as meninas. [6]
Durante o ciclo menstrual, algumas mulheres relatam variações na atenção, na organização e na regulação emocional. A natureza e a intensidade dessas mudanças variam e ainda precisam ser mais bem investigadas. [6, 7]
Na gravidez e no pós-parto, faltam estudos específicos sobre a evolução dos sintomas e o tratamento do TDAH. As decisões clínicas devem ser individualizadas. [2, 6]
Na perimenopausa e na menopausa, ainda não há evidência suficiente para afirmar que as mudanças hormonais provoquem uma piora específica e previsível do TDAH. São fases potencialmente relevantes, mas ainda pouco estudadas. [2, 6]
Como é feita a avaliação?
A avaliação do TDAH em meninas e mulheres deve considerar a trajetória dos sintomas ao longo da vida. É importante investigar:
- Presença de sintomas desde a infância.
- Manifestação das dificuldades em diferentes ambientes.
- Impactos acadêmicos, profissionais, sociais e familiares.
- Condições coexistentes ou outras possíveis explicações.
- Estratégias utilizadas para lidar com as dificuldades. [2–4]
Essa análise longitudinal ajuda a diferenciar sintomas persistentes de atenção e organização daqueles que surgem principalmente durante episódios de ansiedade ou depressão. Também permite reconhecer quando mais de uma condição está presente.
O tratamento precisa ser individualizado
O tratamento pode envolver intervenções farmacológicas e não farmacológicas, definidas conforme os sintomas, os prejuízos e as condições coexistentes. Segundo o consenso utilizado como referência, os medicamentos empregados não diferem por sexo, e a resposta média aos estimulantes parece comparável entre homens e mulheres. Ainda assim, existem lacunas importantes na pesquisa específica com a população feminina. [2]
Há indicações preliminares de que algumas mulheres percebam mudanças nos sintomas ou nos efeitos da medicação durante o ciclo menstrual. As evidências disponíveis, porém, não sustentam ajustes rotineiros da dose conforme o ciclo como recomendação geral. [2, 6]
Durante gravidez, amamentação, pós-parto e menopausa, as decisões terapêuticas exigem avaliação individual dos possíveis benefícios, limitações e riscos.
Reconhecer que o TDAH pode se apresentar de maneiras diferentes ajuda a reduzir atrasos na identificação do transtorno e favorece uma avaliação mais cuidadosa. O diagnóstico não deve ser definido por uma característica isolada, mas pela história clínica, pela evolução dos sintomas e por seus impactos na vida da pessoa.




